“Transformar é um ato de alquimia. E toda segunda chance é um ato de amor.”
A mudança de país, pouco dinheiro e muito aprendizado
Quando moramos na Alemanha, eu tinha pouco dinheiro, mas tinha tempo. Comecei a recuperar roupas e sneakers para a família. Ali aprendi que com técnica e paciência dá pra transformar qualquer peça — e gerar renda gastando pouco.
Aos 52 anos, mudei com meu marido e meu filho para a Alemanha.
Eu não tinha amigos, estava aprendendo o idioma e trabalhava meio período. O resto do dia era a famosa jornada dupla: ir e voltar de bicicleta, cuidar da casa, lavar roupa, passar as camisas do meu marido (terno e gravata todos os dias), fazer comida…
No fim das contas, me sobrava 1 a 1h30 por dia. E é importante dizer isso, porque muitas mulheres vivem exatamente assim: trabalham fora, cuidam de tudo em casa e, ainda assim, sentem que precisam de uma renda a mais.
Como o dinheiro era curto e o seguro de saúde obrigatório era caro, o nosso salário cobria aluguel, carro, contas básicas… e praticamente mais nada. Então eu fazia de tudo para economizar:
– arrumava minhas próprias unhas
– reformava meus sapatos e roupas
– e passamos a comprar quase tudo de segunda mão.
A loja que mudou minha visão de valor
Em uma loja comunitária chamada Findus, percebi como as pessoas descartam peças ótimas. Ali entendi que “valor” é relativo — e que muito do que vira lixo pode virar oportunidade.
Um dia, alguém nos indicou uma loja comunitária chamada Findus. Ela funcionava com voluntários, só abria na sexta à tarde e sábado, e era muito frequentada por imigrantes e refugiados.
Lá tinha de tudo: roupas, casacos de inverno, eletrodomésticos, brinquedos… Mas o mais curioso é que nada tinha preço.
Você escolhia o que queria, levava ao balcão e, na hora de pagar, a atendente olhava para você, imaginava quanto você poderia pagar e dizia um valor. Se estivesse bom, você levava.
Foi ali que entendi, de um jeito muito concreto, que “caro ou barato” é sempre questão de ponto de vista. Aquilo que uma pessoa descarta, outra pode enxergar como uma oportunidade enorme.
E o volume de coisas boas sendo descartadas era impressionante.
Segundas chances em forma de roupa e tênis
Sempre acreditei que nada está totalmente perdido. Na Alemanha, enquanto transformava roupas e sneakers para o nosso uso, percebi que o que muitos descartavam ainda tinha vida. Essa ideia de “segunda chance” virou parte de mim — e mais tarde se tornaria a base do meu trabalho.
Nesse período, meu filho também estava passando por uma fase difícil: deixou para trás os amigos de infância, com quem estudava desde os 5 anos, e de repente, aos 10, estava a mais de 10.000 km de distância deles.
Como mãe, eu queria animá-lo de algum jeito. Comecei a comprar camisetas simples e baratas e a pintar à mão com personagens e temas que ele gostava.
No começo, não tinha “talento”. Então eu repetia, errava, tentava de novo. Foi assim que aprendi, na prática, que técnica e segurança vêm com tempo e persistência, não com dom mágico.
Aos poucos, fui fazendo o mesmo com sapatos e tênis: limpando, ajustando, reformando. Tudo com orçamento apertado e muita criatividade.
Portugal, cirurgia e o início da Alquimia do Sneaker
Em Portugal, depois da cirurgia e convivendo com artrose, precisei encontrar uma forma de trabalhar sem forçar o corpo. Foi nesse momento que transformar sneakers usados passou de necessidade a profissão. Com poucos recursos e limitações físicas, criei um método simples, seguro e adaptado — que qualquer pessoa, mesmo com pouca mobilidade ou tempo, consegue aplicar de casa. Foi assim, da dificuldade, que nasceu a base do Alquimia do Sneaker.
Depois de 5 anos na Alemanha, nos mudamos para Portugal.
Por causa das minhas joanetes, precisei fazer cirurgia e, a partir daí, passei a usar praticamente só tênis / sneakers.
Aposentada, eu queria uma renda extra, algo que eu pudesse fazer de casa, no meu ritmo.
Como já tinha algumas ferramentas, tintas e até materiais de manicure, comecei a comprar tênis usados e roupas velhas, reformar e vender em plataformas de segunda mão.
Tenho artrose, sim, mas enquanto minhas mãos permitirem, vou continuar fazendo essa arte que me faz tão bem — e ensinando outras pessoas a descobrirem esse caminho também.